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Batman A Piada Mortal (HQ) – Critica: Quando a Loucura e o Caos Tomam a Vida de uma Pessoa

Bem vindos amigos and amigas fãs do Batman ou simplesmente de HQs clássicas — e também claro, de ótimas histórias. Nesta resenha da HQ A Piada Mortal, vamos explorar mais uma das obras do mestre Alan Moore e finalmente entender como a Loucura e o Caos derrotaram o Bem e a Moral! Boa leitura!

Batman A Piada Mortal (HQ) – Critica: Quando a Loucura e o Caos Tomam a Vida de uma Pessoa

Piada-mortal

Bem vindos meus amigos e amigas a mais uma critica de HQ do Afonte Geek. Desta vez escolhi outra obra de Alan Moore para resenhar, depois de ter feito a critica da também clássica V de Vingança — clique para ler também… mais tarde, claro.

Logo de começo  trago a sinopse da HQ. Na resenha (com Spoilers) tratarei da Arte, das Polêmicas sobre o Estupro de Barbara Gordon… E se o Batman Matou o Coringa. Assim como também faço um link com o filme do Tim Burton: Batman (1989) — que temos uma critica aqui no site.  Sem esquecer a Conclusão do texto. Vamos à resenha!

A Sinopse da Piada Mortal (The Killing Joke)

Batman A Piada Mortal - página 26 editada
Clássica cena da Piada Mortal… será que foi censurada? Agora você irá descobrir

A HQ conta mais ou menos o “O Nascer do Coringa”, e por isso se trata de um Cânone. Basicamente tudo o que acontece n’A Piada Mortal, reverbera no universo do Batman.

Ela conta “duas histórias” ao mesmo tempo: a primeira do Coringa relembrando de forma “não muito precisa” do seu primeiro encontro com o Batman. A Segunda, no presente, aonde ele foge da prisão para fazer seu experimento: “Só é preciso um dia de Caos na vida de alguém, para que ele abandone a Razão e se jogue à Loucura”.

A Arte, as Polêmicas e o Batman de Tim Burton (1989)

Batman A Piada Mortal - página 2 editada

A Arte d’A Piada Mortal, por conta dos tons de azul escuro usados no Batman, fugindo ainda daquele cinza-escuro e depois, somente negro-negro que vemos nele agora, lembra um pouco, digamos, a segunda fase do Herói, em contraste com a primeira que a própria HQ relembra quando conta o primeiro encontro dele com o Coringa.

Por que isso é importante? De algum modo as próprias poses do Batman e como ele se porta dentro dos quadrinhos — e a HQ tem poucos pensamentos mas muitos diálogos — lembram a arte de V de Vingança. Veja na Galeria de Imagens no fim do post a comparação entre a arte de V de Vingança e d’A Piada Mortal. Até o rosto do Coringa se tornou “Clássico”, assim como seu nascimento nesta HQ. Vale citar que Tim Burton a usou como referência (penso eu) para fazer o filme Batman (1989).

Na verdade o próprio Tim Burton fala que leu e adorou a Piada Mortal, como vocês podem ver na Capa dela!
Tim Burton falando sobre A Piada Mortal

O próprio Tim Burton no diz que:

Eu adorei A Piada Mortal…
É o meu favorito.
O primeiro gibi que gostei.

A desenho do rosto do coringa d’A Piada Mortal é usado como “banner” do Coringa que Jack Nicholson faz no filme. Mas Tim Burton não usou só a arte dela como referência para fazer o que seria sua concepção de Batman… a HQ nos traz muito mais que isso.

A Polêmica do Estupro de Barbara Gordon

Batman A Piada Mortal - página 14 editada 1

Antes de tudo, se você está começando agora, Barbara é filha do Comissário Gordon, e sem o “conhecimento” de seu pai, ela é a Batgirl. Nesta HQ é que vemos como ela deixa de ser a heroína, para se tornar a Oráculo.

O Coringa enquanto escapa do Asilo Arkham para provar sua tese da “Loucura sobrepuja o Bem e a Moral quando há Desespero“, aleija a filha de Gordon com um tiro na coluna. Se você leu a HQ, sabe. Mas a questão não é a crueldade do Coringa, e sim, das fotos da Barbara que ele mostra para o Comissário — para deixá-lo louco.

piada mortal cena censurada
A Cena Censurada

Durante muito tempo houveram especulações de que Barbara fora  estuprada e inclusive que essas “fotos” foram censuradas. Bom… as imagens dela nua (o que indicaria o estupro) realmente foram cortadas… e aqui vocês podem vê-las — sim de fato, houve o estupro (ou ao menos, algum tipo de abuso sexual).

E Batman Matou o Coringa?

Batman A Piada Mortal - página 46 editada 2

Outra polêmica é sobre o Batman ter assassinado o Coringa no fim da HQ, logo após do palhaço ter contado a piada sobre a luz e os loucos — aonde um poderia apagar a luz impedido que o outro o alcançasse. Na verdade, durante toda a HQ o Batman discute consigo mesmo se no fim, um acabaria matando o outro.

Para “aclarar” um pouco essa questão, vamos ver o comentário de Grant Morrison sobre o Batman ter matado o coringa. Para quem não sabe, Morrison é autor do clássico Superman: Grandes Astros, do também clássico Batman: Arkham Asylum e foi ele quem levou o quadrinho do Batman (com seu run) mais recentemente. Ele diz:

Ninguém entende o final, porque o Batman mata o Coringa. Por isso se chama A Piada Mortal. O Coringa conta a Piada Mortal no fim, Batman estica suas mãos e quebra seu pescoço, e por isso a risada acaba e as luzes vão sumido, porque essa era a última chance de atravessar essa barreira. E Alan Moore escreveu a história definitiva de Batman/Coringa — ele finalizou tudo.

Batman A Piada Mortal - página 46 editada

E completa:

Mas ele (o artista Brian Bolland) fez de uma forma que ficou ambíguo, então ninguém precisa ter certeza, o que significa que não precisa ser a última história Batman/Coringa. É brilhante!

Eu confesso que devo discordar um pouco de Morrison. Acho que Alan Moore realmente quis fazer a “última” história do Batman — para dar (ainda) mais importância ao Coringa no universo do morcego. Mas uma das questões a mais é o próprio pedido de Gordon. O comissário após ter sido liberto pelo morcegão, pediu para que ele mostrasse que “Pessoas de Bem nem sempre ficam loucas por conta de um dia ruim”.

O próprio Batman repetiu mais ou menos isso quando o Coringa pediu para “mandar ele pro inferno”:

Porque não é isso que eu quero… Porque estou cumprindo a Lei.

Batman A Piada Mortal - página 44 editada 1

Mas a grande questão não é o Batman ter matado o Coringa ou não no final — no momento em que a policia chega e o som do riso de ambos se mistura ao som da sirene. A grande questão é o fato que Morrison notou no fim: Moore ter deixado isso EM ABERTO. Ou seja, a depender do leitor, seguindo a interpretação (ou não) que Moore deu à estória do Batman/ Coringa como um todo, é que ela/ele vai tirar suas próprias conclusões.

Mas concordo com Morrison sobre o sentido da Piada Mortal ser contada (também) no final…

E do que fala A Piada Mortal afinal de Contas?

Coringa de Jack Nicholson
Coringa de Jack Nicholson

Alan Moore é anarquista e eu deixei isso claro enquanto fazia a review de V de Vingança assim como quando mostrei isso também no Top 5 Curiosidades das HQs. O Grande Tema d’A Piada Mortal que Morrison deu uma pincelada é o Elogio à Loucura que envolve Batman e Coringa — quando ele fala “da luz” para chegar ao outro prédio.

Esse Elogio à Loucura é tratado de forma diferente no filme do Batman de Tim Burton (1989). O Diretor nos traz ela no sentido de que “Nem todo mundo é certinho”, “todos podemos ter lapsos”. Mais ou menos nos dizendo que “Esse mundo não é tão Normal” — fala essa inclusive do próprio Batman no filme. A loucura não é apenas “logo ali“, e sim o mundo que não é tão são quanto nos dizem ser — assim argumenta Tim Burton.

O “Experimento” Do Coringa

Batman A Piada Mortal - página 8 editada

Na HQ que pelo que vejo, serviu de inspiração ao filme, a coisa é diferente. Alan Moore tenta nos passar que o caos é a um ponto de distância. Que a qualquer momento, qualquer pessoa, pode ter sua vida afetada de tal modo pelo acaso e pelo caos, que se pode cair em total agonia nos braços (e abraços) da Loucura e do Mal. Este é o argumento do Nascimento do Coringa e do surgir do próprio Batman.

A Piada Mortal — antes de eu ler a interpretação de Morrison — sempre foi ao meu ver, a última piada que o Coringa conta a sua esposa. Quando ele havia abandonado tudo para ser comediante e estava perdido por não conseguir sustentá-la, grávida, mas ainda não tinha caído no escape da loucura — até ela morrer.

piada mortal - morte da esposa e cair no abismo
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E como ela morreu? Dentro do próprio acaso, diante do caos — testando o “Aquecedor de Madeiras”. Esse foi o ponto de fissura para o Coringa, antes mesmo dele cair nos químicos e ter sua pele mudada (ou se ele consegue se lembrar direito).

Ele argumenta exatamente a mesma coisa do Batman… deve ter sido um mal “do gênero” que o fez se vestir de “rato voador“, “fingindo que a vida faz sentido” e que Batman agindo assim lhe dá “vontade de vomitar“… Um acaso que muda por completo a vida de alguém, finalmente revelando a Piada (Mortal) que é este Mundo. O reino indelével do caos aonde nada pode resistir — nem mesmo a Moral e o Bem.

A Boba Moral dos Bobos “que dão vontade de Vomitar”

Batman A Piada Mortal - página 38 editada 2
De fato Batman é Louco por tentar superar seu trama se vestindo de “rato voador”… só lembrando.

Do lado oposto ao “Experimento do Coringa“, e provavelmente de Moore que defende o caos/ acaso e a loucura, está o Batman, Gordon e sua defesa ao Bem e a Moral. Os três são tratados de forma “boba” na HQ. Com a Lei, a Vontade de Ajudar Alguém a se Recuperar — de que “o nosso jeito funciona” — mesmo depois do palhaço ter passado “Tanto dos Limites”.

Moore na realidade constrói um Poderoso Elogio ao Mal nessa sociedade estafante. Ver os valores éticos (que na história foram colocados de maneira boba de forma proposital) confrontando com um elogio ao “mal que eclode”, foi quase como o autor brincando com os leitores: Seu herói é só um Bobo na Corte de Bobos. O final realmente é simbólico do Batman entregando o Coringa à Policia. Quase sem sentido: “O Bem vencendo o Mal”. Em outras palavras, a HQ é um Argumento sobre a Moral.

Batman A Piada Mortal - página 38 editada
Durante toda a HQ o Coringa rouba a cena defendendo seu argumento do caos… para no fim Gordon e Batman dizerem coisas… bobas rs

Ou pode ser como opinou Morrison: o Batman não resiste a este Mal, esperando uma “ovação da galera” e matando o Coringa. Como se a Razão, o Bem e a Moral do Batman finalmente não resistissem ao caos e a loucura, e se juntassem a ele no fundo do Abismo. Do mesmo modo, um Argumento sobre a Moral.

Conclusão – Moral x Loucura

piada mortal - fim da review e para você leitor batman mata o coringa
Bem, Razão e Moral x Loucura, Demência e Psicopatia – duas faces da mesma moeda?

Como eu disse, A Piada Mortal faz parte do universo do Batman. Por isso toda a importância dela. O seu sentido, ou o que Moore defende é de fato um Elogio ao Mal, como se o Dragão matasse São Jorge, que não resistiu ao acaso de um trauma terrível que aconteceu na sua vida — porque oras, o “Mundo é uma Piada” e a pessoa acaba se jogando neste Abismo.

Seja mostrando Batman como um herói bobo que defende o Bem e a Razão diante do Caos e da Loucura… Ou que simplesmente sucumbe e vai “para galera”, matando o Coringa.

Batman A Piada Mortal - página 44 editada 2

Sobre o fim da HQ eu tenho a minha escolha. Para mim Batman resiste e sua Moral Permanece, entregando assim o Coringa à policia — tolamente, ao menos como Alan Moore nos faz pensar neste poderoso Elogio ao Mal.

E para você leitor/a? Batman cai no Abismo?

Reparem como a Arte de V de Vingança lembra a d’A Piada Mortal – e vice versa

Nome Original: Batman: The Killing Joke/ Editora: DC Comics
Ano de Lançamento: 1988

Fontes: Jovem Nerd – Cena de Nudez Censurada em A Piada Mortal [Link]; Grant Morrison e Batman Mata o Coringa n’A Piada Mortal [Link] / Afonte Geek – Batman (1989) O Filme – Review: Um Elogio à Loucura [Link]; Review de V de Vingança [Link];  Top 5 Curiosidades das HQs [Link]

O Estrangeiro de Albert Camus: O No-sense e a Indiferença do Mundo – Indicação

Finalmente estamos terminando mais uma série de indicações de literatura. E no fim, vamos falar um pouco do livro O Estrangeiro de Albert Camus. Nessa indicação abordamos um pouco de no-sense (sem sentido) e da indiferença. Boa leitura a todos!

O Estrangeiro de Albert Camus: O No-sense e a Indiferença do Mundo – Indicação

O estrangeiro Albert Camus

Mas seu AdminTB, como você conheceu O Estrangeiro de Camus? Alguém pode chegar para mim de repente e perguntar. A resposta é que como vocês sabem (ou não), eu sou professor de filosofia, então certo dia um professor de ética na federal ainda, resolveu abordar a leitura deste livro na sala de aula.

Fizemos (cada um de nós) um artigo de algumas páginas, mais ou menos uma resenha sobre ética e o livro escolhido — como vemos, abordei O Estrangeiro. OBVIAMENTE que não farei aqui uma resenha enorme e sim uma leve indicação, abordando os temas que considero mais relevantes no livro.

Mas primeiro… A Sinopse!

O estrangeiro Albert Camus 2

A estória gira em torno de Mersault. Um homem com uma vida mediana, que logo no começo do livro, enquanto ainda namorava Marie (da qual recebeu uma proposta de casamento) acabara de saber que sua mãe morreu. Mas Mersault… era diferente. Na verdade ele somente soube que sua mãe havia morrido — e assim como na proposta de casamento de Marie, tomou o ocorrido com sua costumeira indiferença.

Vou falar de três assuntos aqui nesta indicação: Indiferença, No-sense e Ética (mais precisamente, como vemos e nos damos ao encontro com o outro, se com comportamentos habituais, ou seja, com atos que todo mundo espera, ou se simplesmente, alheios a tudo).

A Indiferença

O estrangeiro Albert Camus 4Sobre a indiferença, Mersault era realmente um cara alheio. Sabe,  uma pessoa que “se algo não me afeta ou não sinto que não me afeta, então tanto faz”. Ele sempre foi assim para com tudo e todos, e nunca ligou para muita coisa. Foi com indiferença que ele recebeu a proposta de casamento, foi com ela que recebeu a noticia da morte de sua mãe.

Não quer dizer que não amasse as duas (Marie e sua mãe)… Eu de cá tenho minhas suspeitas. Mas de certo pouca coisa lhe afetava.  Aliás, somente coisas que ele percebesse na hora, sentimentos que lhe sobreviessem como de sobressalto, algo que o fizesse acordar…

No-sense (sem sentido)

O estrangeiro Albert Camus 3Foi o que acabou acontecendo. Ele foi pego num “acaso”, e diante do mesmo, ele mata um homem. A explicação que ele nos dá é: “matei por causa do sol”. No-sense. Eu abordei o assunto na Review do Anime de Suzumiya Haruhi, quando simplesmente acontecimentos sem sentido algum, sem uma razão aparente — ou discernível — nos levam a agir de forma alheia ao outro.

Se Mersault não se afetava com (quase) nada, mas simplesmente com acontecimentos que ele mesmo não poderia prever que ocorressem, como o sol que muito forte lhe ofuscou (foi no afã do momento que ele matou o homem). Acontecimentos assim ocorrem. Como matar porque se quer o lápis de volta, ou porque bateram no seu carro, e você descontroladamente (tem um revolver) o saca e atira.

Eu poderia até dizer “sem controle”, mas o termo bom mesmo é “sem sentido”. Algo que nos leva a agir por instinto, sem compreensão. Aonde simplesmente compramos certo sentimento que nos toma de sobressalto. E como eu disse por ser alheio, acaba sendo natural agir fora do habitual, fora do esperado no âmbito ético para com o outro.

A indiferença é do mundo para conosco, de nós para com o mundo

Monólogo O Estrangeiro, com atuação de Guilherme Leme e direção de Vera Holtz feito em 2012.
Monólogo O Estrangeiro, com atuação de Guilherme Leme e direção de Vera Holtz feito em 2012.

É natural que logo Mersault além de preso, fosse finalmente julgado “moralmente” pela sua indiferença. Porque não sentiu a morte da mãe, ou pelo fato de parecer realmente não amar Marie (ou até amasse, só que casar era algo que não o afetava, nem que sim, nem que não).

Era como se finalmente a sociedade acordasse de quem era Mersault e iniciasse a julgá-lo não apenas pela morte, mas por ele pouco cuidar do outro. E assim ela mesma, sem entendê-lo, sem entender suas crenças e disposições diante do mundo, tratou-o finalmente com indiferença, tornando ele, alheio, sozinho diante do mundo.

Conclusão

Albert Camus
Albert Camus

Vejo uma metáfora aí. Na verdade este acordar diante do outro (da sociedade diante de quem era Mersault) me recorda de Edward Mãos de Tesoura, quando finalmente todo mundo percebe que o Edward poderia sim, ser perigoso, fora do comum, do habitual — como Mersault agia e pensava.

Acho que é como se Camus nos falasse (peço licença aos sabedores do tema) que nós todos, somos alheios ao outro, ao nosso próximo. Nós todos não nos importamos realmente em conhecer quem é a pessoa ao nosso lado, porque simplesmente não conhecemos realmente, quem nós somos. Todos nós somos indiferentes ao outro, e sim, agimos por simples conveniência, por simples hábito — pelo que é esperado.

E quando confrontados, quando diante daquilo que não nos é habitual, nos afastamos, repudiamos simplesmente. “Pode-se dizer, que parece ser Mersault o próprio mundo, o qual quando ambos se olhando no espelho, não se compreendem, porque agem sem se compreender.”

É isso pessoal. Espero que tenham gostado e leiam o livro!
Abraços!